Há dois Lyles. Há o Lyle americano e o Lyle brasileiro.
O problema é que eu prefiro o Lyle brasileiro. E tento fazer
tudo que eu puder pra preservar esse outro Lyle dentro de mim.
Gosto mais do Lyle brasileiro porque ele é confiante. Ele fala
numa língua em que as palavras não o tocam no mesmo jeito
que o inglês. Assim, o Lyle brasileiro é mais livre que
o Lyle americano. Ele diz coisas que não pode dizer em inglês.
Como resultado, Lyle brasileiro mais aproveita a vida por viver sem
inibições... Já toquei assuntos nas conversas com
brasileiros (e, em particular, com brasileiras) que eu nem aproximaria
se eu falasse inglês. Consegui fazer brincadeiras e dar elogios
que nem entrariam na minha mente se eu pensasse em inglês.
Outra coisa: o português é uma língua que mais
estimula a imaginação. Com certeza. E a prova disso é
a alta criatividade dos brasileiros, que pode ser visto na música,
arte, publicidade e no futebol do Brasil.
A cultura brasileira mobiliza espontaneidade. Valoriza o momento atual.
E encoraja os riscos. (Pois, no Brasil, a cada momento, quem sabe o
que vai seguir?) Todos são ingredientes da invenção
e do sucesso.
Vim ao Brasil pela primeira vez em 1996, quando tinha 19 anos. Apaixonei-me
ao pousar no Rio de Janeiro, quando o avião inteiro começou
a aplaudir que o vôo deu certo. Sabia que não mais estava
num lugar ordinário.
O amor cresceu durante a hora e meia que eu passei no aeroporto, esperando
a chegada das minhas malas. Enquanto eu via todos esses queridos cariocas
ao meu redor (quem, aliás, estavam fumando sem parar), eu fazia
os meus planos de me transformar de americano para brasileiro.
Depois de mais 8 viagens ao Rio, uns cursos de travesseiro, uma namorada
séria, vários amigos brasileiros, um dicionário
português, e uma forte vontade de deixar pra trás o Lyle
americano, o Lyle brasileiro começou a se definir.
No momento, moro em Miami Beach.
Não é um lugar ruim pra uma pessoa criada no Brasil.
Há sol. Calor. Praias. E tem possibilidade de eu encontrar coisas
brasileiras. Já fui ao show da Marisa Monte. Às vezes
eu como no Porcão. Aproveito a praia aos sábados.
Mas, como todo brasileiro, não sou imunizado à saudade.
Sinto falta da minha língua. Sinto falta do arroz e feijão.
Sinto falta da minha terra.
Então, se alguém que está lendo tudo disso sabe
de uma oportunidade a colocar o Lyle brasileiro de volta no Brasil (especialmente
na cidade maravilhosa), mande-me uma notícia, por favor. Estará
salvando o melhor tipo de americano que existe: o americano convertido.